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ToggleQuando alguém fala em fome, a imagem que vem à cabeça costuma ser de uma pessoa muito magra. Por isso, muita gente estranha quando descobre que a insegurança alimentar e obesidade podem aparecer na mesma casa, e até na mesma pessoa. Imagine uma mãe que pula o almoço para sobrar comida aos filhos, completa o jantar com bolacha recheada e refrigerante porque é o que cabe no orçamento do mês e, com o tempo, ganha peso. Ela não “come demais” por falta de disciplina. Ela come o que consegue comprar. Neste artigo você vai entender como essa relação funciona, por que ela atinge mais as mulheres, o que a ciência já mostrou e o que dá para fazer na prática, mesmo com pouco dinheiro.
O que é insegurança alimentar e o que ela tem a ver com obesidade
Segurança alimentar significa ter acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer outras necessidades básicas, como moradia, transporte e saúde. A insegurança alimentar é o oposto: é quando esse acesso falha, seja pela quantidade, seja pela qualidade, seja pela incerteza de saber se haverá comida amanhã.
Aqui está o ponto que confunde muita gente: insegurança alimentar não é sinônimo de passar fome o tempo todo. Ela tem graus. Em um extremo, estão as famílias que ficam dias sem ter o que comer. No outro, estão famílias que têm comida na mesa, mas vivem com a preocupação constante de que ela acabe, e que por isso trocam o que é mais nutritivo pelo que é mais barato e rende mais.
Os níveis da insegurança alimentar
No Brasil, esse problema é medido pela Escala Brasileira de Insegurança Alimentar, conhecida como EBIA. Ela é um questionário curto, com perguntas como “nos últimos três meses, os moradores tiveram a preocupação de que os alimentos acabassem antes de poder comprar ou receber mais comida?”. A partir das respostas, a família é classificada em quatro situações:
- Segurança alimentar: a família tem acesso regular e suficiente a alimentos e não se preocupa com a falta deles.
- Insegurança leve: existe preocupação com a falta de comida no futuro, e a qualidade da alimentação já começa a ser comprometida.
- Insegurança moderada: a quantidade de comida diminui, principalmente para os adultos.
- Insegurança grave: há redução da quantidade de alimentos também para as crianças, e a fome passa a ser vivida no dia a dia.
Perceba que a insegurança leve e a moderada já envolvem troca de qualidade por preço. É justamente nessa faixa que o vínculo com o excesso de peso aparece com mais força.
E o que é obesidade, de forma simples?
Obesidade é uma doença crônica em que há acúmulo excessivo de gordura corporal, a ponto de aumentar o risco para a saúde. Doença crônica, de forma simples, é aquela que dura muito tempo e precisa de acompanhamento contínuo. Na prática, ela costuma ser identificada pelo Índice de Massa Corporal (IMC), que relaciona peso e altura. Adultos com IMC a partir de 30 são classificados com obesidade, e entre 25 e 29,9 há sobrepeso. O IMC é um ponto de partida e tem limitações, porque não diferencia gordura de músculo, mas é o método mais usado em pesquisas e na saúde pública.
Como a insegurança alimentar e obesidade se encontram no mesmo prato
Parece contraditório: se falta comida, como o peso aumenta? A explicação é que a insegurança alimentar é, antes de tudo, um problema de acesso a alimentos adequados, não apenas de quantidade. Pesquisadores chamam esse cenário de “dupla carga da má nutrição”: convivem, na mesma população ou na mesma família, a desnutrição de um lado e o sobrepeso de outro. Má nutrição, aliás, não quer dizer só comer pouco. Quer dizer se alimentar de um jeito que não atende às necessidades do corpo, seja por falta, seja por excesso de energia e falta de nutrientes.
Existem vários caminhos que ajudam a explicar essa ligação. Vale conhecer os principais.
Alimentos baratos costumam ser mais calóricos e menos nutritivos
Pense em uma ida ao mercado com 150 reais para a semana. Arroz, feijão e ovos rendem bem. Mas frutas, legumes, verduras e carnes frescas costumam pesar no orçamento, e ainda estragam mais rápido. Já macarrão instantâneo, biscoito, salgadinho, refrigerante, embutidos e pão branco são baratos, duram muito e saciam rápido. O problema é que esses produtos têm muita energia (calorias) para pouco nutriente, e costumam ter excesso de açúcar, gordura e sal.
O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, chama esses itens de ultraprocessados. Em resumo, são produtos industriais feitos com ingredientes que você não encontra na cozinha de casa, como aromatizantes, corantes e emulsificantes. O próprio guia recomenda priorizar alimentos in natura ou minimamente processados e evitar os ultraprocessados. O desafio é que, para quem vive com orçamento apertado, seguir isso à risca nem sempre é possível.
O ciclo de “fartura e escassez”
Em famílias que vivem insegurança alimentar, é comum que a comida seja mais abundante logo depois do recebimento do salário ou do benefício e mais escassa no fim do mês. Esse sobe e desce pode gerar um padrão de comer muito quando há comida e restringir quando não há. Estudos sugerem que esse ciclo pode favorecer o ganho de peso e alterar a relação com a fome e a saciedade, além de ser desgastante emocionalmente.
Fala-se também em possíveis adaptações do corpo a períodos repetidos de restrição, que podem favorecer o armazenamento de energia. Esse é um ponto em que a ciência ainda debate os mecanismos, então vale tratá-lo como hipótese em estudo, não como regra definitiva.
Estresse, sono e saúde mental
Não saber se haverá comida amanhã é uma fonte intensa de estresse. O estresse prolongado mexe com hormônios, como o cortisol, e pode aumentar o apetite por alimentos muito doces e gordurosos. Além disso, preocupações financeiras atrapalham o sono, e dormir mal também está associado a maior fome e menor saciedade. Soma-se a isso a ansiedade e, em muitos casos, a depressão, que podem levar à alimentação emocional, aquela em que a comida vira uma forma de aliviar a tensão.
Falta de estrutura para cozinhar e se movimentar
Outro fator é o acesso à infraestrutura. Quem mora em local sem geladeira adequada, sem fogão em bom estado ou sem gás (e muita gente precisou cozinhar com lenha ou álcool nos últimos anos) tende a recorrer a alimentos prontos. Em bairros sem praças, calçadas seguras ou espaços de lazer, o sedentarismo, que é a falta de atividade física regular, também fica mais provável. Jornadas longas de trabalho e deslocamentos demorados completam o quadro, porque sobram pouco tempo e energia para cozinhar do zero ou se exercitar.
Por que a insegurança alimentar e obesidade afetam mais as mulheres
Os dados brasileiros mostram uma diferença que chama atenção. Pesquisas nacionais, como a Pesquisa Nacional de Saúde e a Pesquisa de Orçamentos Familiares, do IBGE, apontam que a obesidade é mais frequente entre as mulheres adultas do que entre os homens. Ao mesmo tempo, inquéritos sobre fome no país, como o realizado pela Rede PENSSAN, mostram que as famílias chefiadas por mulheres enfrentam mais insegurança alimentar, principalmente em suas formas moderada e grave, do que as chefiadas por homens. Os números exatos mudam a cada edição das pesquisas, por isso vale consultar os dados mais recentes nas fontes ao final do artigo.
Isso não é coincidência. Há uma combinação de fatores sociais por trás dessa realidade.
Desigualdade de gênero e renda
Em média, as mulheres brasileiras recebem menos que os homens, mesmo exercendo funções semelhantes, e estão mais presentes em trabalhos informais e de menor remuneração. Quando uma mulher é a única responsável pela renda da casa, o orçamento fica mais frágil. É por isso que o termo “mulheres chefes de família” aparece tanto nos estudos sobre o tema: são famílias com maior vulnerabilidade social, ou seja, mais expostas a situações que dificultam o acesso a direitos básicos, como alimentação, moradia e saúde.
O hábito de se servir por último
Em muitas casas, a mulher é a responsável por garantir a comida de todos e acaba abrindo mão da própria refeição quando o alimento é pouco. Em vez de comer bem e em horários regulares, ela “belisca” o que sobrou, come rápido, em pé, ou aproveita o que as crianças deixaram no prato. Esse padrão irregular costuma ser de pior qualidade nutricional e pode favorecer o ganho de peso, especialmente quando o que sobra é pão, biscoito ou frituras.
Dupla jornada e pouco tempo para si
Trabalho fora, cuidado com filhos, tarefas domésticas, cuidado com idosos da família. A rotina de muitas mulheres deixa pouquíssimo espaço para atividade física, descanso e preparo de refeições mais elaboradas. Isso não é falta de vontade. É falta de tempo, de apoio e de rede de cuidado.
O que dizem as evidências sobre insegurança alimentar e obesidade
A relação entre os dois problemas é uma das mais estudadas na área de saúde pública, e os resultados não são idênticos em todos os grupos. Vale entender o que a ciência já mostra com mais clareza e onde ainda há dúvidas.
Em países de renda alta, como os Estados Unidos, diversos estudos encontraram associação entre insegurança alimentar e obesidade, principalmente entre mulheres adultas. Geralmente, a associação é mais clara para a insegurança leve e moderada, e menos consistente para a grave, em que a restrição de comida é mais intensa. Em outros grupos, como homens e crianças, os resultados variam mais de um estudo para outro.
No Brasil, pesquisas que usaram a EBIA também identificaram maior prevalência de excesso de peso em mulheres de domicílios com insegurança alimentar, principalmente nas formas leve e moderada. Ao mesmo tempo, as famílias em insegurança grave tendem a ter maior proporção de baixo peso e desnutrição, o que reforça a ideia de que a relação não é uma linha reta, mas depende do grau do problema.
Uma associação não prova que uma coisa causa a outra
É importante ter cuidado com a interpretação. Muitos desses estudos são transversais, ou seja, observam a situação em um único momento. Eles mostram que as duas condições aparecem juntas, mas não conseguem provar que uma causa a outra. Também pode haver outros fatores envolvidos, como escolaridade, renda, saúde mental, local de moradia e idade. Por isso, o mais honesto é dizer que há associação consistente e vários mecanismos plausíveis, sem apontar um único culpado.
O que as evidências sugerem para a saúde pública
O consenso entre instituições como a Organização Mundial da Saúde e a FAO é que o enfrentamento precisa ser amplo. Isso inclui garantir renda, ampliar o acesso a alimentos saudáveis a preços justos, apoiar a agricultura familiar, oferecer alimentação escolar de qualidade e fortalecer o cuidado em saúde na atenção primária. Em outras palavras, não basta orientar a pessoa a “comer melhor” se o alimento saudável não chega até ela.
Doenças crônicas e outros riscos que merecem atenção
O excesso de peso, quando associado a uma alimentação de baixa qualidade, aumenta a chance de diabetes tipo 2, hipertensão (pressão alta), doenças do coração, certos tipos de câncer, problemas nas articulações e apneia do sono. Quando isso acontece em um contexto de vulnerabilidade social, o risco é maior, porque o acesso a consultas, exames e remédios também costuma ser mais difícil.
Há ainda o impacto emocional. Pessoas com obesidade enfrentam preconceito, inclusive em serviços de saúde, o que pode afastá-las do cuidado. Quem vive insegurança alimentar e ainda é culpada pelo próprio peso carrega um peso duplo: o da falta de recursos e o do estigma.
Sinais de que vale buscar ajuda profissional
- Cansaço excessivo, muita sede e urina frequente, que podem estar relacionados à glicose alta.
- Dores de cabeça frequentes, tontura ou pressão alta já identificada.
- Ganho de peso rápido, sem explicação clara.
- Compulsão alimentar, isto é, comer grandes quantidades em pouco tempo, com sensação de perda de controle.
- Tristeza persistente, ansiedade intensa ou falta de interesse pelas atividades do dia a dia.
- Crianças da casa com baixo peso, muito peso ou crescimento abaixo do esperado.
Se você se identificou com algum desses sinais, procure a Unidade Básica de Saúde mais próxima. Ela é gratuita e é a porta de entrada do SUS, onde você pode ser atendida por médico, enfermeiro, nutricionista (quando disponível) e outros profissionais. Este artigo traz informação geral e não substitui uma avaliação individual.
Como se alimentar melhor com pouco dinheiro: dicas práticas
Ninguém resolve a insegurança alimentar apenas com boas escolhas pessoais, e é justo reconhecer isso. Mas existem estratégias que podem ajudar a tirar o máximo do orçamento disponível, sem culpa e sem fórmulas mágicas.
Monte a base com o básico brasileiro
O arroz com feijão é uma das combinações mais completas e baratas da nossa cultura alimentar. Juntos, fornecem energia, fibras, proteínas e vários minerais. Acrescente ovos, legumes de época e, quando possível, uma fruta, e você já tem uma refeição mais equilibrada. Um prato simples de arroz, feijão, ovo mexido com tomate e couve refogada, por exemplo, costuma custar pouco e nutre bem.
Compre pelo que está na época

Frutas, legumes e verduras da estação são mais baratos. Em feiras livres, o final do dia costuma ter preços menores. Sacolões, hortas comunitárias e feiras da agricultura familiar também podem ser boas opções. Vale observar o que está em oferta e adaptar o cardápio a isso, em vez de insistir em um alimento que está caro naquela semana.
Planeje, mesmo que de forma simples
Planejar não precisa ser uma planilha complicada. Pode ser anotar no caderno o que você vai cozinhar nos próximos três ou quatro dias e comprar só o necessário. Cozinhar uma panela maior de feijão e congelar porções, por exemplo, economiza gás, tempo e dinheiro. Aproveitar sobras, como transformar o arroz do almoço em bolinho ou o legume cozido em omelete, reduz o desperdício.
Troque, aos poucos, os ultraprocessados
Você não precisa eliminar tudo de uma vez. Uma troca possível: em vez de comprar refrigerante todos os dias, reserve esse valor para frutas. Em vez de macarrão instantâneo, preparar macarrão comum com molho de tomate caseiro e ovo. Em vez de biscoito recheado no lanche, uma banana com aveia. São mudanças pequenas, que cabem melhor na rotina e se sustentam por mais tempo do que dietas radicais.
Faça refeições em horários mais regulares
Quando possível, tente manter horários mais ou menos fixos para as refeições. Pular o almoço e chegar com muita fome ao fim do dia aumenta a chance de exagerar no que estiver mais à mão. Se a refeição completa não for possível, um lanche simples, como pão com ovo e uma fruta, é melhor do que ficar longas horas sem comer.
Movimente-se do jeito que for possível
Para quem passa o dia sentada, uma caminhada de 20 a 30 minutos pode ser um ponto de partida simples. Se isso for difícil, vale dividir em blocos de 10 minutos, subir escadas, descer um ponto de ônibus antes ou fazer exercícios dentro de casa. O mais importante é escolher uma atividade que caiba na rotina e possa ser mantida com regularidade, sem se cobrar como se estivesse treinando para uma competição.
Erros comuns ao falar e lidar com insegurança alimentar e obesidade
Alguns equívocos aparecem tanto nas conversas do dia a dia quanto em campanhas de saúde mal planejadas. Reconhecê-los ajuda a ter uma visão mais justa do problema.
- Achar que obesidade significa “comer demais por falta de controle”. Em contextos de vulnerabilidade, o excesso de peso pode ser resultado de uma alimentação limitada pelas condições de vida.
- Pensar que quem tem excesso de peso não pode estar passando fome. Como vimos, a má nutrição pode coexistir com o sobrepeso.
- Fazer dietas muito restritivas por conta própria. Cortar refeições para emagrecer rápido pode piorar a compulsão e o ciclo de fartura e escassez.
- Depender de produtos “fit” caros achando que são a única opção saudável. Comida de verdade, como feijão, ovo, frutas e legumes, costuma ser mais barata e igualmente eficiente.
- Se culpar. A culpa não ajuda a mudar hábitos e costuma piorar a relação com a comida.
- Esquecer o papel da política pública. Renda, preço de alimentos e acesso a serviços de saúde pesam muito mais do que a força de vontade individual.
Políticas públicas: o que ajuda a reduzir a insegurança alimentar e a obesidade
Se o problema é coletivo, as soluções também precisam ser. No Brasil, algumas ações têm papel importante:
- Programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, que ajudam as famílias a comprar alimentos.
- Alimentação escolar, por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que garante refeições para estudantes da rede pública e prevê a compra de alimentos da agricultura familiar.
- Restaurantes populares e cozinhas comunitárias, que oferecem refeições a preços acessíveis.
- Atenção primária à saúde, com acompanhamento do estado nutricional da população pelo SUS.
- Orientação alimentar, a partir do Guia Alimentar para a População Brasileira.
Segundo avaliações internacionais recentes, o Brasil voltou a registrar redução expressiva da fome nos últimos anos, o que mostra que políticas de renda e de alimentação podem produzir efeitos concretos. Mas a insegurança alimentar em suas formas leve e moderada ainda atinge uma parcela grande das famílias, e é justamente nessa faixa que o excesso de peso se manifesta com frequência. Ou seja, sair do mapa da fome não encerra o problema da qualidade da alimentação.
Ferramentas e recursos que podem ajudar
Guia Alimentar para a População Brasileira
É uma publicação do Ministério da Saúde, gratuita e em linguagem simples, que traz regras práticas para escolher e combinar alimentos. Serve para qualquer pessoa, em especial para quem quer reorganizar a alimentação sem dietas complicadas. Como limitação, ele orienta de forma geral e não considera restrições de renda no dia a dia, então vale adaptá-lo à sua realidade. Você pode acessá-lo em bvsms.saude.gov.br.
SISVAN (Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional)
É a ferramenta do SUS usada pelas equipes de saúde para acompanhar o estado nutricional da população. Para você, o benefício está no atendimento: quando for à Unidade Básica de Saúde, seu peso, sua altura e outras informações podem ser registrados e acompanhados. Não é um aplicativo de uso individual, e sim um sistema usado pelos profissionais. Mais informações em sisaps.saude.gov.br/sisvan.
Unidades Básicas de Saúde (UBS) e CRAS
A UBS oferece consultas, aferição de pressão, exames básicos e orientação em saúde. O CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) ajuda a verificar se a família pode receber benefícios sociais, como o Bolsa Família, e orienta o cadastro no CadÚnico. Vale procurar a unidade do seu bairro. A limitação é que a disponibilidade de profissionais, como nutricionistas, varia de cidade para cidade.
Painéis de dados da Rede PENSSAN
A Rede PENSSAN divulga os resultados dos inquéritos nacionais sobre insegurança alimentar. É útil para quem quer entender os números mais recentes, estudantes, jornalistas e pessoas interessadas no tema. O conteúdo é mais informativo do que prático para o dia a dia. Acesse em olheparaafome.com.br.
Principais pontos do artigo
- Insegurança alimentar não é só passar fome: inclui a incerteza sobre ter comida e a perda de qualidade da alimentação.
- A EBIA classifica as famílias em segurança alimentar e insegurança leve, moderada e grave.
- Obesidade e insegurança alimentar podem coexistir, principalmente nos níveis leve e moderado.
- Alimentos ultraprocessados costumam ser mais baratos, duram mais e são muito calóricos, o que pesa nas escolhas de quem tem pouco dinheiro.
- Estresse, sono ruim, ciclos de fartura e escassez e falta de estrutura ajudam a explicar a ligação entre os dois problemas.
- As mulheres, especialmente as chefes de família, são mais afetadas por causa da desigualdade de gênero, de renda e da sobrecarga de cuidados.
- A ciência mostra associação, mas não prova causa única, e os resultados variam conforme o grupo estudado.
- Estratégias simples, como planejar, comprar o que está na época e valorizar o arroz com feijão, ajudam a melhorar a alimentação com pouco dinheiro.
- Políticas públicas de renda, alimentação escolar e atenção primária são essenciais para enfrentar o problema.
- Em caso de sinais de alerta, procure a UBS ou um profissional de saúde.
Olhar para a insegurança alimentar e obesidade sem culpa

Entender a relação entre insegurança alimentar e obesidade muda a forma como olhamos para o prato dos outros e para o nosso. O excesso de peso nem sempre é sinal de abundância, e muitas vezes é o reflexo de uma alimentação limitada pelo preço, pelo tempo e pelo estresse. Isso vale de modo especial para as mulheres, que carregam boa parte da responsabilidade de alimentar a família e, muitas vezes, são as últimas a comer bem.
O que você pode levar daqui para a vida real? Primeiro, trocar a culpa por informação. Segundo, valorizar a comida simples, que é acessível e nutritiva. Terceiro, fazer pequenas mudanças que caibam na sua rotina, em vez de buscar soluções radicais. E, por fim, procurar os serviços de saúde e de assistência social quando precisar, porque eles existem para isso. Nenhuma dessas atitudes resolve sozinha um problema que é também estrutural, mas todas ajudam a dar um passo concreto.
Conta pra gente
- Você já percebeu, na sua família ou na sua comunidade, como o preço dos alimentos influencia o que vai para a mesa?
- Qual das dicas de alimentação com pouco dinheiro você acha mais fácil de colocar em prática?
- Que informação deste artigo foi novidade para você?
Perguntas frequentes sobre insegurança alimentar e obesidade
É possível ter obesidade e passar por insegurança alimentar ao mesmo tempo?
Sim. A insegurança alimentar envolve não só a quantidade, mas também a qualidade da comida. Uma pessoa pode ter acesso a calorias suficientes, ou até em excesso, vindas de alimentos baratos e ultraprocessados, e ainda assim não ter acesso regular a alimentos nutritivos. Por isso, a obesidade pode coexistir com a insegurança alimentar, especialmente nas formas leve e moderada.
O que é a EBIA e para que ela serve?
A Escala Brasileira de Insegurança Alimentar é um questionário usado em pesquisas e em políticas públicas para medir como as famílias vivenciam a falta de acesso à comida. Ela classifica os domicílios em segurança alimentar ou em insegurança leve, moderada ou grave. Ajuda governos e instituições a identificar onde a fome e a má alimentação são mais frequentes e a direcionar programas sociais.
Por que as mulheres são mais afetadas pela obesidade e pela insegurança alimentar?
Há uma combinação de fatores: desigualdade de renda entre homens e mulheres, maior presença feminina em trabalhos informais, chefia de famílias com apenas uma renda, sobrecarga de cuidados com a casa e os filhos e o hábito de priorizar a alimentação de outras pessoas antes da própria. Fatores biológicos e hormonais também influenciam o peso, mas, nos estudos sobre insegurança alimentar, os fatores sociais ganham grande destaque.
Comer ultraprocessados é sempre um sinal de desinformação?
Não. Em muitos casos, é uma questão de acesso, preço, tempo e praticidade. Para quem não tem geladeira, fogão ou tempo para cozinhar, produtos prontos acabam sendo a alternativa possível. Informação ajuda, mas só funciona se as condições para colocar em prática também existirem.
Como saber se minha família vive em insegurança alimentar?
Algumas perguntas podem ajudar: vocês já se preocuparam que a comida acabasse antes de poder comprar mais? Já deixaram de comer alimentos mais saudáveis porque o dinheiro era pouco? Já diminuíram o tamanho das refeições ou pularam refeições por falta de dinheiro? Se a resposta for sim para alguma delas, pode haver algum grau de insegurança alimentar. Procure o CRAS ou a UBS do seu bairro para saber quais apoios estão disponíveis.
Dá para emagrecer com pouco dinheiro?
Muitas pessoas conseguem melhorar a alimentação e o peso com pequenas mudanças, como priorizar arroz, feijão, ovos, legumes e frutas, reduzir refrigerantes e ultraprocessados e se movimentar com regularidade. Mas cada pessoa tem condições de saúde diferentes, e não existe promessa de resultado. O ideal é buscar orientação na UBS, onde profissionais podem avaliar seu caso e indicar o melhor caminho.
Crianças também são afetadas pela insegurança alimentar e obesidade?
Sim, e de formas diferentes. Em situações graves, podem aparecer desnutrição e atraso no crescimento. Em situações mais leves, o excesso de peso e a alimentação pobre em nutrientes podem se tornar mais comuns. A alimentação escolar tem papel importante nesse cenário, pois garante refeições mais equilibradas durante o período de aula.
Existe tratamento para a obesidade pelo SUS?
Sim. O SUS oferece acompanhamento na atenção primária e, em alguns casos, encaminhamento para serviços especializados. A oferta varia conforme o município. Comece pela UBS do seu bairro, onde a equipe poderá avaliar sua situação e indicar os próximos passos.
Fontes e referências
| Ministério da Saúde. Guia Alimentar para a População Brasileira: bvsms.saude.gov.br Ministério da Saúde. SISVAN, Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional: sisaps.saude.gov.br/sisvan Rede PENSSAN. Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil (VIGISAN): olheparaafome.com.br IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde e Pesquisa de Orçamentos Familiares: ibge.gov.br FAO. O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo (SOFI): fao.org Ministério da Saúde. Portal do Governo Federal sobre saúde: gov.br/saude |



